Crítica: “O Que Te Faz Mais Forte”

O Que Te Faz Mais Forte
(Stronger)
Data de Estreia no Brasil: 08/02/2018
Direção: David Gordon Green
Distribuição: Paris Filmes

O Que Te Faz Mais Forte tinha tudo para ser uma obra medíocre de uma poderosa história real, voltado para o melodrama e calcada em caminhos estruturais convencionais. Contudo, a produção acha caminhos para criar momentos genuinamente poderosos, mesmo que regularmente o roteiro se renda a mais trivial das convenções, estabelecendo uma narrativa intrigante, principalmente por seus personagens serem ricos em contradições e motivações. A história de Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal) – um sobrevivente do bombardeio da maratona de Boston, que acabou perdendo as duas pernas no atentado – é mais do que perfeita para os acertos e os tropeços da narrativa, e funciona tanto como enredo motivacional, como também como ponto base para questionar o peso do título de “herói” que depositamos em figuras trágicas.

Este último ponto, na verdade, se mostra o elemento mais intrigante do longa, já que o filme consegue estabelecer bem as qualidades de Jeff, construindo-o como uma figura muito querida pelos amigos e familiares. Os primeiros minutos da projeção (antes do atentado) são primordiais para que possamos compreender a personalidade de Jeff e principalmente o seu senso de humor apurado, que por vezes parece mascarar sentimentos conflitantes ou dolorosos dentro do jovem. Isto é primordial para que sintamos de forma orgânica que as piadas e comentários feitos por Jeff se encaixam como reação deste após o incidente, sem soar como banalização do ocorrido e funcionando ainda como elemento narrativo de uma boa quebra de expectativa – criando um tom muito diferente, e até mesmo complementar, do ótimo O Dia do Atentado.

Sabendo que a tragédia nos proporcionaria com maior facilidade compreendermos o protagonista, o roteiro (escrito por John Pollono) não teme em mostrar a imaturidade deste para o espectador, mostrando como Bauman não se sente preparado para se tornar símbolo de luta de uma cidade atormentada por uma bomba. Assim, a obra nos cobra empatia para com o indivíduo, mas nunca a maniqueísta simpatia, já que presenciamos dificuldades que este enfrenta e o percebemos como um humano falho, um cara comum, trabalhador e fã de baseball que infelizmente estava no lugar errado e na hora errada – não só pelos ferimentos advindos da bomba, mas também por ser a própria pessoa que reconhece um dos responsáveis pela explosão, alçando ainda mais a sua posição heroica.

Aliás, ao apresentar tal segmento, a projeção jamais se concentra numa satisfação sádica de ver os terroristas sendo capturados e mortos, preterindo por deixar claro um leve desconforto no espectador por ver a família de Bauman muito mais concentrada em comemorar a morte dos dois homens responsáveis pelas bombas, do que em estar ao lado de Jeff – e isso fica ainda mais evidente devido aos caminhos que o roteiro adota de mostrar a família Bauman aproveitando de eventos e da fama do protagonista, sem que estes percebam a dor que tais situações proporcionam. Ainda, é interessante reparar como a própria narrativa (de novo) pesada de que Jeff é um herói, se dá dentro da própria família, que não percebe como isto o desumaniza e o atormenta.

Ao menos, essa desumanização só pode ser dita em relação ao protagonista do ponto de vista dos familiares deste, já que o diretor David Gordon Green faz uma abordagem profundamente calcada nos aspecto humano da narrativa. Assim, o cineasta (junto do diretor de fotografia Sean Bobbitt) usa de uma profundidade de campo reduzidíssima quando em “close up”, isolando os indivíduos do resto do mundo e se concentrando sempre em mostrar a reação dos personagens em detrimento da situação específica – e por mais que seja plasticamente bem construída, a cena na qual vemos um flashback do momento pós-explosão quebra esse ambiente de insinuação e subjetividade que funciona tão bem para instigar o espectador, soando uma exposição que não acrescenta nada ao filme. Ainda assim, me sinto tentado a ignorar completamente este deslize só pela esplendorosa cena de depoimento de Jeff no hospital, no qual este afirma que o cheiro que sentiu com a explosão da bomba remetia ao 4 de Julho, com David Gordon Green filmando do lado de fora da janela do hospital, na qual uma luz vermelha de carro de polícia sobreposta ao azul e branco de dentro do hospital, remete às cores da bandeira norte-emaricana.

Mas, verdade seja dita, o verdadeiro acerto por trás de O Que Te Faz Mais Forte está mesmo nas interpretações grandiosas de Gyllenhaal e Tatiana Maslany (que interpreta Erin Hurley, a garota que Jeff foi ver na linha de chegada no dia da maratona). Criando uma dinâmica estridente e palpável entre os personagens, a dupla de atores desenvolve uma química única que faz com que o espectador se com o fim destes, com a dúvida de que se eles ficarão juntos no final apesar das inúmeras dificuldades. Construindo Jeff com maneirismos suaves de sorriso, jeito de andar e com a forma com que faz um sinal “positivo” com as mãos, Gyllenhaal domina cada emoção do protagonista e consegue nos envolver num arco de mudança e maturidade que é um pouco acelerado demais dentro do último ato, e que, mesmo assim, o ator consegue vender bem.

Maslany, por outro lado, faz uma composição que julgo ser ainda mais difícil do que a de seu companheiro de cena, já que não possui elementos físicos para sua atuação, estabelecendo com nuances os medos, receios e culpas que cercam a personagem, fazendo com que julguemos até mesmo qual a real motivação inicial de Erin ter voltado com Jeff: por mais que nunca seu amor e sua disposição para com o protagonista seja questionado, o ponto de partida inicial para tal desenrolar amoroso parece muito calcado na culpa por Jeff estar lá para ver Erin correr, e até mesmo várias atitudes problemáticas do jovem parecem ser relevadas pela garota devido a situação extrema, algo que explode de maneira magnífica numa determinada cena dentro do carro.

Contudo, não só de acertos no departamento de personagens vive o filme, já que o longa acaba criando sequencias que (por mais que possam ter existido na vida real) soam desnecessárias dentro da narrativa – e o policial que, ao invés de exercer seu trabalho, para pedir uma foto com Jeff é um exemplo disso. Além do mais, determinadas figuras parecem surgir em cena simplesmente como gatilho para situações dramáticas, como é o caso da figura do “salvador” de Jeff e do chefe deste, ainda que as cenas destes personagens sejam bem escritas no diálogo, percebemos que estas estão ali para impulsionar a estória.

Mas ainda assim, quando o filme parece se sabotar com aspectos mais artificiais no roteiro quanto ao sentimento dos personagens, há sempre um plano fechado no rosto dos atores, ou um take longo que deixe a situação fluir de maneira orgânica, que nos mergulha em suas dores graças a expressividade de um elenco afiado. “Stronger” é um filme que pretere por se concluir não num grandioso clímax, mas num momento intimista de dois personagens complexos. É um filme que, acertadamente, prefere não se concentrar na exposição da ferida, mas no grito e na expressão de dor dos indivíduos.

Ótimo
Por: André Arruda

 

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