Crítica: “Stranger Things 2”

Stranger Things 2
Data de Lançamento: 27/10/2017
Distribuição e disponibilidade: Netflix
Produção: Matt Duffer, Ross Duffer

     Aposta relativamente arriscada da Netflix, a primeira temporada de “Stranger Things” foi um sucesso estrondoso quando foi lançada em julho do ano passado. Com um ar explicitamente nostálgico dos anos 1980, a série criada pelos irmãos Duffer contava com atores muito jovens e outros que haviam feito sucesso na época (como é o caso de Winona Ryder). Apesar de seu orçamento limitado, a série foi capaz de contar sua história de forma extremamente competente e conseguiu quase que imediatamente garantir uma segunda temporada. Lançada agora no final de outubro em meio a enormes expectativas por parte de sua já enorme quantidade de fãs, “Stranger Things 2” certamente não decepciona, mergulhando ainda mais no universo de mundos invertidos, crianças com super poderes telecinéticos e outras com estilingues e pedras.

            Assim como já havia acontecido na primeira temporada, a segunda parece muito mais um filme longo dividido em nove partes do que uma série de TV clássica, onde cada episódio representa um acontecimento, uma mini-história dentro de uma maior. Sabendo que o público da Netflix é acostumado a ver as séries lançadas pelo canal de uma só vez, os irmãos Duffer aproveitaram para transformar sua história em um filme muito longo dividido em 3 atos. Sendo assim, nos primeiros 3 ou 4 episódios temos um primeiro ato que apenas desenvolve os personagens de forma mais profunda. Assim, se na primeira temporada havíamos nos envolvido com a vibrante dinâmica constituída entre Dustin, Lucas, Mike e Eleven, agora passamos mais tempo com cada um deles individualmente, aprendendo mais sobre sua personalidade e vivência.

     Nesse sentido, há um abandono da lógica de núcleos divididos entre crianças/adolescentes/adultos utilizada anteriormente. Nesta temporada, tudo se mistura e acompanhamos dinâmicas que não haviam sido exploradas antes. Dessa forma, há uma interessante relação paternal desenvolvida entre Eleven e Jim Hopper. Por outro lado, Mike fica mais isolado em seu luto e saudades de Eleven, enquanto Dustin e Lucas são mais desenvolvidos com a presença de Max, nova integrante do grupo trazida para esta temporada. Além disso, Joyce ganha outras camadas que não a de mãe de Will, com um interessante romance com Bob (Sean Astin). A relação Nancy/Steve/Jonathan também ganha contornos interessantes, sem cair em algum tipo de clichê desinteressante de triângulo amoroso.

       Mas o real fio-condutor da série está no personagem de Will Byers. Relegado à necessária posição de McGuffin como o menino desaparecido da primeira temporada, Will ganha um ótimo desenvolvimento nesta segunda parte da história. Fica claro desde o começo da série que seu drama não se encerrou com a fuga do Upside Down. Em uma excelente cena de abertura em um fliperama que dá o tom mais sombrio desta nova temporada, Will passa mal e volta momentaneamente ao mundo que tanto lhe custara escapar. Mais de um ano após os últimos acontecimentos, Will continua tendo estes flashes e recaídas, que o levam a novos problemas que são maravilhosamente bem desenvolvidos no que constitui o segundo ato da história. Para além disso, o extremamente jovem e promissor Noah Schnapp ganha destaque para esbanjar seu talento e nos fazer sentir na nossa pele cada momento de dor de seu personagem. À medida que preocupamo-nos cada vez mais com seu bem-estar, cresce também nosso investimento emocional com a própria história que protagoniza.

      Outra personagem muito bem desenvolvida é Eleven. Além de integrar uma interessantíssima e profunda relação paternal com Hopper, a personagem ganha um desenvolvimento mais próprio. Impedida pelo xerife de sair de sua cabana e interagir com seus amigos, Eleven é representada como uma personagem individual, que parte em busca de sua origem e identidade. Saindo da posição de “ajudante” e “integrante” do grupo de crianças, ela é melhor aproveitada nesta posição mais solo. Infelizmente, no entanto, sua storyline acaba sendo inadvertidamente um dos maiores problemas da série. Em um problema que é muito mais uma questão de estruturação dos episódios da temporada, o sétimo episódio, inteiramente focado em Eleven, antecipa o clímax e vem logo depois de um cliffhanger que colocava em questão a sobrevivência de certos personagens. Assim, o episódio acaba sendo um enorme balde de água fria, que deveria ter sido diluído em ouros episódios ou ter aparecido em algum momento anterior.

           Este não é, no entanto, meu maior problema com esta segunda temporada. Quando estreou, muitos apontaram “Stranger Things” como uma mera colcha de retalhos de outras referências, uma obra genérica que não tinha muito a dizer por si só. Eu discordo categoricamente de tal informação. No entanto, de forma quase paradoxal, a segunda temporada que adentra mais no universo próprio criado pela série e assume uma característica mais própria, acaba sendo muito mais genérica que a primeira. Isso não se dá pelas referências a outras obras, que continuam lá em abundância, mas são inclusive mais sutis do que antes. Na verdade, o problema está no roteiro. Nesta segunda temporada, há uma série de momentos que são meros facilitadores narrativos, e outros ainda que reproduzem clichês extremamente desgastados. Ao utilizar estas muletas de roteiro, “Stranger Things 2” peca pelo excesso de momentos mal escritos e torna-se formulaico e genérico em muitos trechos. Vou tentar abordar um destes momentos que me permite não abordar momentos muito significativos do enredo.

          Em um dado momento, Eleven briga com Hopper e sai momentaneamente de casa. Buscando encontrar seus amigos, a personagem vai até seu colégio e encontra Mike rindo enquanto conversa com Max. Há inúmeros problemas nesta cena. O primeiro se encontra no fato de que em nenhum outro momento, anterior ou posterior, estes dois personagens, que declaradamente não se gostam, ficam sozinhos. Portanto, tal coincidência é da mais pura forçação de barra no sentido narrativo. Além disso, a utilização de um clichê antiquíssimo de comédias românticas (uma personagem encontrar seu/sua pretendente conversando com outra pessoa num momento oportuno para gerar conflito e ciúmes) se traduz em uma preocupante sexualização precoce da personagem de Eleven, que além de ter um ciúmes despropositado ainda sente raiva de outra mulher que nem mesmo conhece por motivo algum. Mais tarde, Eleven mentaliza tal momento dentro de uma estratégia para canalizar sua raiva e potencializar seus poderes, tornando a cena ainda mais patética e irritante.

        Há uma série de outros momentos como este que, apesar dos muitos pontos positivos desta segunda temporada, me fazem gostar dela menos do que da primeira. Apesar de frustrantes, no entanto, felizmente tais momentos não são o suficiente para estragar a experiência total de “Stranger Things 2”. Com a presença de um excelente antagonista que paira sobre os personagens, os dois últimos episódios da temporada representam seu terceiro ato e constituem um clímax excelente. Com um orçamento um pouco maior do que a série tinha antes, a série é capaz de lidar com muito mais elementos em cena do que podia antes. Sendo assim, os efeitos especiais são ótimos e a direção é muito competente ao criar cenas de ação belas e envolventes, que culminam em um final extremamente satisfatório que nos deixa com aquele gostinho de “quero mais”.

          Se valendo de excelentes atuações de todos os envolvidos no projeto, os 9 episódios de “Stranger Things 2” culminam em uma experiência “cinematográfica” recompensadora e envolvente, que conseguem aprofundar muito o desenvolvimento de  seus personagens e do próprio universo criado pelos irmãos Duffer. Entretanto, é necessário ressaltar que, a forma apressada e equivocada com que a cena final que garante a existência de um enredo para a continuação é conduzida serve como sintoma desta segunda temporada: ainda muito boa, mas muito mais imperfeita do que a anterior. Nos resta aguardar o rumo que os irmãos Duffer levarão a série a seguir. E de fato aguardarei ansiosamente, pois continuo empolgado com “Stranger Things”.

estrela da morte 4

 

 

Ótimo

Por Thiago Natário

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