Crítica: “Terra Selvagem”

Terra Selvagem
(Wind River)
Data de Estreia no Brasil: 02/11/2017
Direção: Taylor Sheridan
Distribuição: California Films

        Enquanto eu assistia a “Terra Selvagem” tive uma sensação muito grande de familiaridade com as temáticas e estrutura narrativa. Mais a frente percebi que o filme me lembrava muito “Hell or High Water” (“A Qualquer Custo”). E não poderia ser diferente: ambos são escritos por Taylor Sheridan, que aliás já havia demonstrado grande talento em 2015 ao assinar o roteiro de outro filmaço, “Sicario”. Em muitos sentidos, este “Terra Selvagem” é tão bom quanto os excelentes filmes que citei anteriormente, principalmente ao utilizar sua ambientação como personagem ativo da trama. Por outro lado, há algumas falhas de percurso que o deixam em um patamar um pouco inferior a eles. Mas só um pouco.

       Mais até do que um personagem importante, a terra desolada e desértica (lembrando que desertos também podem ser constituídos por neve) da região de uma pequena cidade e de reservas indígenas no Wyoming estabelecem o tom e são a alma de “Terra Selvagem”. Um filme sobre pesar, desolação e a atração inevitável do passado, o roteiro de Sheridan se transveste de um whodunnit tradicional para discutir suas temáticas e explorar suas personagens. Assim, quando uma jovem nativa-americana é encontrada morta pelo caçador Cory Lambert (Jeremy Renner) enquanto procurava por leões da montanha dentro da reserva indígena, a agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) é mandada para a região para investigar o crime.

              O primeiro ato do filme é sensacional, explorando uma das melhores e mais úteis funções do cinema, ao criar em nós como público uma grande empatia e curiosidade por uma cultura e vivência que não conhecíamos. Esta forte conexão estabelecida com o filme é muito bem utilizada pelo roteiro ao fazer com que nos importemos com os personagens quase como um desdobramento automático de nosso interesse. Há aqui uma excelente mescla entre as temáticas e o ambiente, quando Sheridan utiliza uma belíssima cinematografia para enfatizar a desolação da paisagem e a pureza da neve manchada pelo derramamento de sangue, enquanto ouvimos os personagens reforçarem a ideia de que habitar aquele pedaço de terra é um exercício de resistência e sobrevivência.

            Constituindo-se como um estudo de personagem, “Terra Selvagem” depende muito de atuações sólidas de seu elenco, e as recebe em abundância. Todo o elenco coadjuvante extrai o melhor que podia de seus personagens, com destaque para os excelentes Graham Greene como Ben e Gil Birmingham como Martin. O último, aliás, já foi esnobado pela Academia ano passado, quando sua atuação como coadjuvante em “Hell or High Water” foi ignorada em função de interpretações menos interessantes. Esse ano ele certamente merece uma atenção especial da Academia por sua comovente interpretação de Martin, pai da garota assassinada, Natalie.

            Ainda mais essencial para o funcionamento do filme, no entanto, é a excelente dinâmica entre Jeremmy Renner e Elisabeth Olsen, que já havia sido construída em “A Era de Ultron” e aqui é apenas aperfeiçoada pelos dois ótimos atores. Além disso, ambos acham um ponto de equilíbrio perfeito para seus personagens. Renner consegue ser quieto e contemplativo sem fazer o clichê western  do homem durão e solitário. Há uma vulnerabilidade e sensibilidade no homem que se permitiu sofrer por um grande trauma em seu passado sem sucumbir e ser derrotado por ele. Já Olsen está ótima como uma jovem agente do FBI que se vê cercada de um mundo machista (machismo esse perpetuado pelas mulheres também) mas não responde a ele com uma falsa posição de poder e demonstração de força, o faz apenas realizando seu trabalho com competência e seriedade.

          Com esta forte personalidade estabelecida para os personagens, a relação entre os dois consegue transmitir um afeto paternal, sem soar como uma relação patriarcal de “apadrinhamento” e proteção de um homem mais velho em relação à uma mulher mais jovem. Quando Renner lhe explica elementos sobre o caso e sobre as pistas que encontra, Olsen parece uma estrangeira ouvindo atentamente a uma pessoa que conhece o próprio terreno, não uma mulher sofrendo de mansplaning. Infelizmente, no entanto, nem todas as mensagens mais “ideológicas” de “Terra Selvagem” são tão claras. Enquanto a visão do filme sobre a criminalidade existente na região soa muito ambígua, a motivação para o assassinato de Natalie poderia ter sido bem mais firmemente demarcada e explorada do que foi.

         O segundo ato do roteiro de Sheridan é bastante arrastado e muito inferior ao restante do filme. Enquanto o roteiro demora demais para engrenar em sua trama estilo whodunnit, a trilha sonora que antes vinha sendo ótima, perde seu impacto e torna-se um pouco repetitiva na entrada do terceiro ato. O principal problema, porém, é que os diálogos do filme são bastante fracos, desperdiçando muito do potencial dramático da trama em comentários explanatórios bastante genéricos e rasos. Além disso, a direção de Sheridan, que é muito competente na maior parte do tempo, escorrega ao não achar o tom certo para as cenas de diálogos, insistindo em um plano médio sem criatividade que cria um distanciamento com os personagens que não deveria existir.

            O terceiro ato de “Terra Selvagem”, felizmente, é um verdadeiro deleite narrativo. Há um corte abrupto na ação que representa uma escolha extremamente inteligente e criativa de Sheridan, me deixando ainda mais impactado com todo o clímax do filme. A violência brutal serve como metáfora e analogia ao local que é a essência de toda a trama. Se não é tão bom quanto poderia ter sido, “Terra Selvagem” não deixa de ser um ótimo e impactante drama sobre resistência e sobrevivência em um lugar que ocasiona tanta perda e desgaste. O enredo espelha o ambiente.

 

 

Ótimo 

Por Thiago Natário

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