Crítica: “Dunkirk”

Crítica: Dunkirk
Ação/Suspense/Guerra
Data de Estreia no Brasil: 27/07/2017
Direção: Christopher Nolan
Distribuição: Hoyte Van Hoytema

Me foram necessárias algumas horas para definir que “Dunkirk”, novo longa do prestigiado e odiado diretor Christopher Nolan, se estabelece como uma mistura (guardada as devidas proporções) de “Mad Max: Estrada da Fúria” e o longa “Arca Russa”. Do primeiro, notamos a ideia de que o filme se desenvolve numa imensa sequencia de ação (“Mad Max” em uma perseguição de carros, “Dunkirk” o resgate de milhares de soldados da praia que dá nome ao filme, em plena segunda guerra mundial), enquanto o longa de Nolan ainda se volta totalmente para a imersão na reconstrução histórica, não pontuando um desenvolvimento de personagem que se desgarre da realidade dos horrores da guerra. Assim, “Dunkirk” é um filme de uma premissa simples executada com uma profunda complexidade de produção cinematográfica, um espetáculo visual em que tudo é criado para parecer um museu vivo e imergir o espectador nas situações desesperadoras e tensas que todos os indivíduos que estavam presentes passaram.

Para gerar tal impacto imagético e de suspense com seu longa, Nolan sacrifica em Dunkirk algumas de suas qualidades mais lembradas para se esquivar de seus maiores defeitos: aqui não há diálogos que movimentam a narrativa, sem explicações do filme por parte de personagens ou revelações geradas a partir de uma conversa “corriqueira”, o que faz com que Nolan tenha se voltado muito mais para a construção visual de suas cenas, numa clara decupagem precisa e bem organizada. Tal investida mais direta na composição de seus quadros resulta não só numa incrível melhora da “mise-en-scène” (organização dos elementos de uma cena) por parte do diretor, como ainda tem reflexo no tempo de duração maior nos planos do cineasta, criando cortes fluidos entre as inúmeras ações e reações das cenas que soam reais.

Dessa forma, não apenas assistimos a batalha, mas a vivemos na tela, já que passamos tempo com figuras que mal sabemos o nome e que mesmo assim possuem o mesmo ímpeto de sobrevivência que qualquer outra criatura viva. Nesse sentido, a decisão de Nolan em utilizar de efeitos práticos, milhares de figurantes e acoplar a sua câmera dentro de aviões, barcos ou mesmo utilizar de um único momento de “câmera na mão” (algo raríssimo em sua carreira) em uma cena na praia, é um tremendo acerto, já que nos possibilita ter uma percepção mais acurada quanto ao que cada situação representa para aqueles “personagens” – e com base no que escrevi até agora quanto a direção de Christopher Nolan, posso dizer que esta é a melhor direção de sua carreira.

Aliás, se coloquei a palavra “personagens” entre aspas é justamente pelo fato de que o roteiro (também escrito por Nolan) não dá espaço nenhum para desenvolver qualquer figura que passe na tela como um indivíduo que possui um arco dramático. Embora eu compreenda as críticas feitas por tal decisão por parte do filme, devo dizer que este é justamente um dos elementos que fizeram o filme soar como algo “novo” e mais “realista”. Não há cenas de soldados discutindo suas vidas em casa, quem eles amam, cenas de fotos de filhos e esposas sendo acariciadas ou mesmo conversas frívolas entre soldados enquanto bombas caem sobre suas cabeças ou o inimigo se aproxima. O espectador sabe sobre os personagens tanto quanto estes conhecem uns aos outros dentro do filme, sendo uma tarefa ingrata analisar as atuações dentro do longa, já que ainda que funcional o elenco se estabelece para o desenvolvimento das situações e não o contrário.

Pois o real protagonista de “Dunkirk” é mesmo o evento em si ocorrido naquela praia da França, com todos os elementos do filme apontando para o desenvolvimento de tensão contínua de cada situação. Assim, outro elemento da filmografia de Nolan que foi muito criticado recentemente, mas que aqui ganha destaque é o de designe de som do filme, que consegue estabelecer tantos elementos sonoros que em algumas cenas poderíamos fechar os olhos e ainda assim compreender de forma precisa o clima de tensão que se estabelece por um som ensurdecedor de uma bala que ricocheteia ou uma explosão a poucos metros de nós. Além disso, não posso deixar de pontuar a composição de Hans Zimmer para o projeto, que se estabelece como um som contínuo que emula a tensão das mais variadas formas em seus sons dissonantes que contribuem e muito para a criação de tensão das cenas – e mesmo os elementos mais óbvios da trilha sonora, como o “tic-tac” de um relógio, são elementos extremamente funcionais.

Esta procura incessante de Nolan pelo clima certo de tensão é ainda muito bem explorada pela idéia do cineasta de intercalar 3 perspectivas diferentes que possuem “tempos” diferentes no mundo real, mas que se intercalam de forma onipresente na narrativa. Assim, ao apresentar em seus segundos iniciais que a história do Molhe de uma praia se passa em questão de uma semana, a do mar em um único dia e a missão aérea em uma hora, o longa faz um belo trabalho ao exemplificar como o tempo se dilata ou se comprime dependendo da urgência de nossas ações, resultando em montagens paralelas que Nolan não só domina, como já se tornaram sua marca registrada (e pensando bem, aquele “tic-tac” do relógio na trilha sonora se torna mais do que justificável diante de tal perspectiva da estrutura narrativa criada pelo filme).

Contando ainda com uma duração de certa forma “curta” para a filmografia do diretor (pouco menos de duas horas), este elemento também é crucial para se criar tensão, já que o filme não abre espaço para respirar, o que é primordial para o bem funcionamento da urgência de cada situação (e levando em consideração que nunca vemos os principais personagens do filme dormindo, isto é mais do que coerente). Assim que “Dunkirk” estabelece seu ritmo nos segundos iniciais da narrativa o filme não para até seus créditos finais, gerando a impressão de que o filme é como um tubarão que deve constantemente se mover para frente, ou então morreria.

Completo quanto ao que se propõe a entregar, “Dunkirk” será criticado muito mais pela expectativa frustrada das pessoas do que por qualquer erro próprio a execução do filme. “Não importa sobre o que um filme é, mas sim como ele é sobre o que ele é”, eram as palavras sábias de Roger Ebert e “Dunkirk” é uma experiência de cinema espetacular (assim como o também estreante “Baby Driver”), que te suga pra dentro de seu universo tenso e depois te expele exaurido para fora da sala de cinema. Por mais que seja mais impactante no lado visual do que no emocional – contrariando assim grandes nomes nos filmes de guerra -, a nova obra de Christopher Nolan pode conseguir seus detratores, mas ninguém escapa dos encantos de seu espetáculo técnico de puro cinema.

Por Han Solo

Excelente

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s