Crítica: “Em Ritmo de Fuga”

Em Ritmo de Fuga
(Baby Driver)
Data de Estreia no Brasil: 27/07/2017
Direção: Edgar Wright
Distribuição: Sony Pictures Entertainment

         Dessa vez tenho que dar o braço a torcer: o time responsável pela tradução deste título para o português fez um bom trabalho ao criar a adaptação “Em Ritmo de Fuga” para o intraduzível título original Baby Driver. Além de se encaixar no tom retrô do filme, o título brasileiro consegue em duas palavras falar muito sobre a premissa do filme de Edgar Wright. O reconhecido diretor britânico dirige e assina o roteiro do filme, primeiro de Wright após sua saída do projeto de “Homem-Formiga”(2015) e o encerramento da “trilogia do cornetto” em “The World’s End” (2013). Extremamente autoral em seus filmes (que na verdade são poucos até o momento), Edgar Wright traz em Baby Driver a culminação de toda a técnica e estilo que empregou em sua filmografia, resultando em uma obra extremamente engajante e divertida, que não dá espaço para nenhum breve descanso em seus 110 minutos de pura ação.

             A trama gira em torno do personagem de Baby, um jovem que perdeu os pais em um acidente de carro e mora com o pai adotivo, um idoso surdo-mudo chamado Joe. O filme aos poucos nos explica que Baby roubou o carro de Doc (Kevin Spacey) há 10 anos atrás e desde então vem trabalhando para ele como piloto de fuga para pagar sua dívida. Disse anteriormente que o filme explica as coisas aos poucos, porque ele o faz de forma extremamente orgânica e gradual, em diálogos que soam naturais e que só aparecem depois de muita, muita ação. A incrível abertura dá o cartão de visita do que esperar do restante do filme: embalado por uma música que toca em seus sempre presentes fones de ouvido, Baby espera em seu carro enquanto o grupo contratado por Doc assalta um banco. O que se segue é uma inacreditável cena de perseguição, feita com pouquíssimos cortes de câmera por um diretor extremamente seguro em sua habilidade como cineasta.

           Em poucas palavras, as cenas de ação presentes em Baby Driver são um verdadeiro deleite visual para qualquer público. Mais do que isso: mesmo presentes em abundância durante a exibição, todas elas parecem igualmente originais e inovadoras. Parte disso deve ser atribuída à genial abordagem visual proposta por Wright, que é muito pouco estilizada se comparada ao restante de seu trabalho, mas ao mesmo tempo tem uma marca visual muito própria e é feita com maestria. Outro grande fator aqui é a edição. Os cortes são rápidos sem nunca deixarem a ação confusa e nunca são utilizados para maquiar erros de produção. E nem precisariam, uma vez que há aqui um excelente trabalho de coreografia de sequências de ação extremamente difíceis de serem filmadas, mais impressionantes ainda se levarmos em conta que o filme faz uma utilização muito moderada de computação gráfica.

     Outro fator importantíssimo na composição da obra é a música. Além de ser utilizada como fator de desenvolvimento dos personagens do filme, ela se encaixa perfeitamente no filme. Wright faz aqui ótimas escolhas para sua trilha, com músicas que conseguem ser marcantes sem distrair demais da ação. Mais do que isso: a música é integrada à ação. Há aqui uma sincronia perfeita entre a espécie de “coreografia” que Baby realiza embalado pelas músicas que ouve e a integração entre a edição do filme e as batidas do ritmo das músicas. Muito se elogiou a prática recente de sincronizar a música e a ação em trailers, como no caso de “Esquadrão Suicida”, por exemplo. Baby Driver vai muito além, integrando sua trilha sonora à ação dos personagens em diversos momentos, criando a sincronia perfeita entre o aspecto visual e sonoro do filme.

           Como eu já havia dito anteriormente, minha visão é a de que “Em Ritmo de Fuga” representa (pelo menos por enquanto) a culminação de toda a filmografia do jovem diretor Edgar Wright. Além das já citadas magníficas cenas de ação, há um uso extremamente inteligente da montagem e da edição, imprimindo um ritmo alucinante para o filme. Merece destaque uma cena em que dois personagens estão jantando num restaurante e a câmera faz algumas vezes um giro de 360° em torno dos personagens, fazendo com que a ação do filme pareça absolutamente incessante mesmo quando pouco está acontecendo em tela. No entanto, se está sublime como diretor, o trabalho de Wright enquanto roteirista é imperfeito. Por um lado, o roteiro é capaz de criar uma história envolvente e original, tomando algumas decisões que deixam a narrativa bastante imprevisível do meio para a frente. Já o desenvolvimento de personagens… é bastante misto.

          Por um lado, Baby tem um desenvolvimento surpreendentemente profundo se o comparamos com outros protagonistas de filmes de ação, sendo possível perceber a clara influência de seu passado em suas atitudes presentes. Os bons diálogos do filme e a ótima atuação de Ansel Elgort conseguem criar um personagem extremamente empático a partir de poucos diálogos, constituindo o personagem perfeito para nos imergir na história ao seu lado. No entanto, infelizmente aos personagens coadjuvantes não foi dedicado o mesmo esmero por parte do roteiro. Enquanto as ótimas atuações dos carismáticos Jon Hamm e Jimmie Fox são suficientes para criar personagens críveis, o roteiro relega muito pouco à Kevin Spacey (Doc) e Lily James (Debora). Enquanto o primeiro é bastante mal aproveitado na figura de “mentor” de Baby, sem nenhum desenvolvimento que o torne algo mais do que isso, Debora é muito mal desenvolvida como interesse amoroso do protagonista. A personagem tem uma personalidade bem definida, mas suas ações soam muito pouco naturais e suas motivações forçadas, fazendo com que sua relação com Baby pareça artificial e apressada, prejudicando um pouco do potencial dramático do filme.  No entanto, pode-se dizer que este nunca foi o principal objetivo do filme.

         Para um filme cuja principal pretensão é desenvolver um primor técnico em suas cenas de ação, “Em Ritmo de Fuga” possui um “recheio” dramático mais do que satisfatório. O humor satírico característico dos filmes de Wright é aqui substituído por uma ação incessante que encontra poucos paralelos no gênero dos filmes de ação. Devo dizer que o hype criado em torno do filme está um pouco exagerado: “Em Ritmo de Fuga” não é nenhum “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas é certamente um excelente filme, que cumpre com maestria seu propósito e traz um bem-vindo frescor e originalidade aos filmes de ação.

 

 

Excelente

Por Thiago Natário

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