Crítica: "Moonlight: Sob a Luz do Luar"

Moonlight: Sob a Luz do Luar
(Moonlight)
Data de Estreia no Brasil: 23/02/2017
Direção: Barry Jenkins
Distribuição: A24

       Vencedor do Globo de Ouro de 2017 como melhor filme na categoria Drama, “Moonlight” vem chamando a atenção dos críticos no circuito mundial desde sua estreia, tendo sido colocado desde então como forte candidato ao Oscar 2017. Dirigido e roteirizado pelo relativamente desconhecido Barry Jenkins, “Moonlight” é baseado no roteiro de uma peça que nunca foi produzida, intitulado “In The Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney. A influência desta estrutura teatral sobre o filme explicita-se no fato de este ter uma clara divisão estrutural de três atos, cada um explorando a personalidade de seu personagem principal, Chiron, em três fases de sua vida: infância, adolescência e juventude.
      “Moonlight” toca um tema muito ausente no cinema e na ficção em geral: a homossexualidade dentro de comunidades negras norte-americanas. O mais interessante, porém, é que este não é o foco exclusivo do filme, que opta por fazer um grande estudo da personalidade de Chiron, fazendo com que sua homossexualidade apareça como um importante elemento de sua vida, mas não o único a ser desenvolvido. Utilizando a seu favor a passagem do tempo, o filme de Jenkins aborda a infância problemática de Chiron, com uma mãe negligente e viciada em drogas, problemas estes que aumentam durante sua adolescência e por fim culminam em sua vida como um adulto. É este lapso temporal entre os três momentos que nos permite preenchê-lo com nossa própria interpretação, resultando em um envolvimento ainda maior do público com o personagem principal.
           A partir da descrição da trama, não é difícil pressupor que o elemento mais crucial de “Moonlight” é seu elenco. Não é a toa que duas das oito indicações recebidas pelo filme nos Academy Awards de 2017 são por parte de seus atores. Um dos favoritos a ganhar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, Mahershala Ali é crucial para o filme em sua marcante interpretação de Juan, um traficante de drogas local que encontra Chiron fugindo de garotos que o perseguiam, logo no começo do filme. Apesar de seu pouco tempo de tela, Juan é importantíssimo como uma espécie de figura paterna que Chiron nunca teve, sendo juntamente com Teresa os primeiros a ouvir as angústias e dúvidas do menino, orientando-o da melhor forma possível. O mais interessante sobre o personagem de Juan são os desdobramentos posteriores que sua figura terá ao longo do filme. A atuação de Ali é perfeita justamente por conseguir impressionar a ponto de que seu personagem seja constantemente lembrado pelo público de forma quase automática até o final da história.
           Outra performance de destaque é a de Naomie Harris como a mãe de Chiron, única a aparecer no filme em seus três atos. A atriz é perfeita em construir uma personagem viciada em drogas que consegue não ser simplista, possuindo um arco dramático que marca profundamente os principais momentos da vida do protagonista. Este, por sua vez, trata-se do brilhante esforço coletivo de três atores: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes. O mais impressionante é que o diretor Barry Jenkins propositalmente impediu que os atores assistissem as atuações um do outro, buscando que cada um compusesse seu próprio personagem. Saber disso torna muito mais impressionante a existência de um claro elo de ligação entre as três atuações: por mais que a aparência física de Chiron mude completamente, a essência de sua personalidade introvertida e reprimida continua claramente presente, manifesta através de muitos dos mesmos maneirismos e expressões faciais.
            Além das atuações, deve-se destacar também a excelente performance de Jenkins como diretor. Seus enquadramentos de câmera são sempre precisos em orientar o público, utilizando-se muito de planos fechados e quase nunca deixando Chiron com outro personagem no mesmo enquadramento, enfatizando graficamente o isolamento do protagonista. A paleta de cores e cinematografia são precisas na utilização de ambientes importantes para Chiron, principalmente quando os visita após alguns anos. A predominância do azul condiz com as principais temáticas do filme e lhe confere um ar de sobriedade e confinamento que muito contribuem à narrativa escrita e dialogada.
            “Moonlight” deve muito de seu sucesso à sua edição, impecável em conferir ritmo ao filme e controlar a impressão e os sentimentos que uma cena pretende transmitir. A montagem do filme é tão precisa justamente porque corresponde perfeitamente ao roteiro, explicitando isso ao interromper bruscamente cenas emocionais ou uma trilha sonora predominante. Assim como seu personagem de estudo, “Moonlight” é um drama introvertido, produzido de maneira impecável buscando o objetivo de segurar as respostas emocionais do público ao que está sendo mostrado para depois da exibição. O importante ao assistir o filme não é sentir, mas entrar em contato com uma história marcante, que reverberará em pensamentos posteriores. Mais do que qualquer outro exemplo, “Moonlight” é um filme que gosto mais a cada vez que penso sobre.
Excelente
Por Thiago Natário
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s